domingo, dezembro 31, 2017

Treta da semana (atrasada): o fácil e o difícil.

Depois do alarme social por causa dos livros de actividades para meninos e meninas, a comissão para a igualdade de género fez a editora reformular os livros, evitando a tragédia dos piratas e das princesas. Luís Aguiar-Conraria confessou ter «alguma dificuldade em perceber por que é este assunto tão difícil» e condenou os livros porque «lá por ler aqueles livros a rapariga não é impedida de ir, por exemplo, para astronomia […] mas é condicionada» e o melhor é «que ninguém os compre.»(1) A igualdade não é um assunto difícil. Mas a dificuldade que LAC confessa ter está em perceber que o assunto é outro.

O argumento de LAC parece partir da premissa de que «a biologia implica diferenciação, mas não discriminação». É razoável, mas é preciso distinguir dois tipos de discriminação. Por exemplo, impedir um homem de entrar no balneário das senhoras por causa do seu sexo é discriminação sexual. Mas é legítima. Nem toda a discriminação merece ser combatida. Ignorando esta distinção, LAC defende «políticas de igualdade de género» tanto para combater a discriminação sexual nos tribunais (e.g. «só por ser homem, sei que, se me divorciar, a probabilidade de ficar eu com as minhas filhas é severamente reduzida») como para combater livros de piratas e princesas ou a proporção dos géneros no ensino superior, casos nos quais não é nada óbvio que se viole algum dever de não discriminar.

A caricatura da natureza humana também esconde uma complexidade importante: «as sociedades humanas há muito que deixaram para trás o determinismo da biologia. Se assim não fosse, seriam os homens a usar saias, para arejar os seus órgãos genitais». Além de dar pouco jeito usar um urinol de saia, as saias e as calças surtiram pouco efeito na nossa evolução. Não foi isso que moldou a gravidez, a menstruação, a perda de fertilidade a idades diferentes, a amamentação ou a diferença de tamanho, força e hormonas entre os sexos. Essa evolução, muito anterior à roupa, moldou também de forma diferente as nossas prioridades e comportamentos, desde a distribuição do tempo entre os filhos e a obtenção de poder e bens materiais até a preocupações como a de estar a criar um filho que não é seu ou de ser violado por alguém do sexo oposto. Descurando esta complexidade, LAC culpa os estereótipos por todas as diferenças que lhe parecem inconvenientes, como a preocupação feminina com o aspecto físico. Mas um estereótipo é uma caricatura cognitiva. Simplifica e exagera mas é mais efeito do que causa. Culpar os estereótipos pelas diferenças de género é como culpar uma caricatura pelo nariz grande. Além destes erros, a luta pela igualdade estatística entre os géneros assenta num juízo de valor errado. E injusto. É um erro crasso mas é difícil de reconhecer quando se está comprometido com a ideologia. Por isso, vou tentar ilustrá-lo com um exemplo mais consensual.

Nuns desenhos animados que a minha filha vê (“Loud em casa”), um personagem é filho adoptivo de dois homens. Se me disserem para não a deixar ver estes desenhos animados porque, com seis anos, isto pode condicioná-la a ser homossexual, eu direi que isso é um disparate. Por um lado porque, mesmo que haja correlação entre a orientação sexual e a exposição a exemplos de homossexualidade, a probabilidade de serem estes desenhos animados a determinar a orientação sexual da minha filha é minúscula. Muito mais influentes serão os amigos que ela vai ter e outras experiências de vida, e eu não vou estar sempre a isolá-la de homossexuais para impedir o “contágio”. Mas esta nem é a razão mais importante. O mais importante é que não sou eu quem deve decidir a melhor orientação sexual para a minha filha. Qualquer que seja, será a dela e é dela que deverá vir, seja da sua biologia seja da sua escolha de desenhos animados, e não a vou impedir de os ver estes só porque retratam positivamente um casal homossexual.

É exactamente por isso que também lhe compro livros de princesas quando são esses que ela quer. E normalmente são. Recentemente, ela até me pediu para lhe instalar jogos para meninas. Quando lhe disse que não percebia o que era isso, porque os jogos são para todos (costumamos jogar Minecraft, por exemplo), ela especificou: com princesas, flores e cor-de-rosa. Talvez se eu contrariar estas preferências ela venha a ser empresária em vez de professora, que é a sua escolha do momento. Talvez eu possa condicioná-la a vender quase todo o seu tempo e a ganhar muito dinheiro, contando assim como uma mulher de sucesso e evitando que se torne numa vítima do patriarcado que perde tempo a jogar Minecraft com os filhos. Mas essa decisão deve ser dela e é isto que torna assunto mais difícil do que LAC parece compreender.

Concordo com LAC que «Quando se educa uma criança o objectivo deve ser aumentar-lhe a liberdade.» Mas isto só parece simples quando assumimos que as crianças são todas iguais e que todas as diferenças são fruto de estereótipos e discriminação. Se fosse verdade – se liberdade equivalesse a igualdade – bastava-me pôr a minha filha a brincar com os brinquedos dos irmãos, a ler os mesmos livros e ver os mesmos desenhos animados. Mas essa premissa é falsa. A minha filha é diferente dos irmãos e se quero que ela seja livre tenho de ter em consideração essa diferença. Isto dificulta a tarefa porque tanto a estou a condicionar comprando livros de princesas como recusando-me a comprá-los. Pior ainda, as “políticas de igualdade” exigem um juízo errado acerca das escolhas dos outros. Por exemplo, exigem assumir que é melhor a minha filha ser engenheira informática do que florista ou mãe a tempo inteiro. Só isto justifica combaterem diferenças estatísticas em vez de combaterem apenas casos concretos de discriminação injusta. Mas fazer juízos de valor acerca da profissão futura da minha filha é tão errado quanto julgarem a sua orientação sexual ou qualquer outro aspecto da sua vida que só ela tem legitimidade para avaliar. Como LAC reconhece, o objectivo mais justo devia ser a liberdade. Infelizmente, esse torna o assunto mais difícil e é por isso que anda tudo a lutar pela igualdade.

1- Luís Aguiar-Conraria, A natureza manda os homens usar saias

domingo, dezembro 24, 2017

Há esperança sem Deus?

Este foi o tema do debate em que participei no programa Agora Nós (1). O formato do programa não permite uma discussão aprofundada. Para evitar que os telespectadores mudem de canal os apresentadores impõem um passo rápido, exigindo respostas curtas e dando pouco tempo para elaborar ideias mais complexas. Ainda assim, penso que deu para contrapor alguns equívocos.

À pergunta que lançou o debate respondi que tenho esperança que sim. Foi uma forma diplomática que encontrei para não dizer que a pergunta é um disparate. A esperança é uma disposição subjectiva e a sua resposta a factores externos depende de como os interpretamos e avaliamos. Deus existir ou não existir é irrelevante para a nossa capacidade de ter esperança. Tiago Veloso, o meu interlocutor, padre católico e membro da Congregação da Paixão de Jesus Cristo, concordou mas avisou que, quando se tem esperança sem Deus «normalmente [...] há tragédias logo a seguir também. Quando confiamos muito em nós, demasiado em nós, nos nossos poderes, mais cedo ou mais tarde algo irá acontecer que nos vai fazer cair por terra.» Esta tese parece-me errada. Não é a fé que impede que o campanário da igreja rebente na próxima trovoada. É o pára-raios. São os nossos poderes e a nossa compreensão da electricidade estática e da condutividade dos metais que previne essas tragédias. O mesmo se passa com os antibióticos e as vacinas, o capacete e o cinto de segurança, as saídas de emergência e as escadas dos bombeiros. Objectivamente, o que realmente nos vai safando é a confiança justificada nas nossas capacidades. Não é Deus quem apaga incêndios, previne doenças ou impede os raios de destruir o campanário da igreja.

Esta esperança em Deus é sintoma de uma maleita da religião moderna. Durante milénios, quando ninguém sabia porque trovejava, de onde vinham as doenças ou como se podia combater as pragas, a ineficácia dos deuses era menos evidente. Mas agora é óbvio que não se pode contar com eles. Se é preciso fazer algo temos de ser nós a fazê-lo. Daí a esperança em Deus. Porque esperança é o que resta – é a última a morrer – quando mais nada justifica ter confiança naquilo em gostaríamos de confiar. Por exemplo, eu tenho esperança que não deixem o Trump fazer asneira com a Coreia do Norte. É esperança porque estou muito aquém de conseguir confiar naquela gente. Quando ando de autocarro é diferente. Nesse caso, não tenho mera esperança de que o motorista não espatife a viatura. Tenho confiança nas suas capacidades, justificada por anos a usar transportes públicos sem acidentes. Como Aleixo apontou, é isso que falta ao crente.

A inutilidade de Deus salta à vista no sofrimento absurdo. Na morte de crianças, por exemplo. A resposta de muitos crentes é, como invoca Miguel Panão, «Onde está Deus diante de uma doença injusta ou catástrofe natural? Já escrevi algo sobre isso, mas o P. Tiago foi excelente na resposta. Está na vítima. Naquele que sofre e morre com essa pessoa. Queres ver o rosto de Deus, olha para a criança com cancro e ama-a.»(2) A fasquia para a excelência de Deus parece estar cada vez mais baixa. Ninguém diria ser um bom médico aquele que, podendo curar a criança, ficava em vez disso a sofrer com ela enquanto a deixava morrer. Mas Deus é infinitamente poderoso e infinitamente bondoso sem fazer nada de jeito. Nem mesmo quando teria a obrigação moral de intervir. Panão fala da «força de um sentido e significado de Deus e da forma como interage com o mundo» mas não é claro que sentido e força isso pode ter se Deus nunca interage com coisa nenhuma, nem sequer quando devia fazê-lo.

Mas Panão aponta um factor importante para compreendermos a crença religiosa moderna, agora que é tão evidente que os deuses não servem para nada. «O Ludwig responde honestamente que não sabe e perante o cenário de estar dentro de um avião a cair opta por gritar de pânico. [Mas] de que serve um grito de pânico se não tem o objectivo de se dirigir a Alguém de quem se sente tão longe que só com um grito “espera” fazer-se ouvir?» Realmente, pode parecer estranho tanta gente se dirigir a Deus quando o efeito é nulo. Mas não é tão estranho se considerarmos que pedir coisas é o que aprendemos primeiro. Antes de uma criança conseguir cuidar de si já sabe pedir para que cuidem dela. E cuidam. Nisto, a nossa espécie é bastante diferente do resto dos animais. Pedir para que nos ajudem funciona muitas vezes e passamos os primeiros anos da nossa vida praticamente sem fazer outra coisa. É por isso que é tão importante incutir a crença religiosa nessa fase da vida. Enquanto faz sentido. Se esperarem que o futuro crente cresça, comece a cuidar de outros, a trabalhar e a tratar da sua vida, e só depois lhe falarem de Deus, irá logo perguntar-lhes para que é que isso serve. E concluir que não serve para nada.

Ter esperança sem Deus é como ter prendas sem o Pai Natal. É o que acontece a todos, mesmo a quem acredita no contrário. E não há mal nenhum em acreditar. Desde que se lembrem que as rabanadas não se fritam sozinhas. Ao contrário do que afirmou Veloso, a desgraça não vem quando temos confiança nas nossas capacidades. Vem quando, em vez disso, confiamos nas nossas fantasias.

Boa jantarada a todos, e a ver se o Pai Natal me traz um pouco mais de tempo para o blog daqui em diante. Tenho esperança.

1- A gravação está disponível No site da RTP-1, Agora Nós (V) 13 Out, 2017. O segmento começa por volta do minuto 40.
2- Miguel Panão, Há esperança sem Deus?

sexta-feira, outubro 13, 2017

Agora Nós e ateísmo.

A produção do programa Agora Nós, da RTP-1, convidou a Associação Ateísta Portuguesa a participar num debate informal sobre a fé e o ateísmo. Eu vou lá estar, em representação do meu ateísmo, com a ressalva de que o meu ateísmo não é necessariamente representativo de mais ateísmo nenhum. O outro convidado será um sacerdote da Igreja Católica e a nossa conversa será hoje, Sexta-feira 13, por volta das 16:20, durante o programa. Penso que a gravação ficará depois disponível no site do Agora Nós.

domingo, outubro 01, 2017

Treta da semana (atrasada): a democracia não presta.

Em todas as eleições há quem declare que a democracia não funciona. E ainda bem. A democracia é muito mais do que o voto e é bom que haja discussão sobre todos os valores que nos orientam. Incluindo a própria democracia. Como dizia Mill, a liberdade de exprimir qualquer opinião é importante porque tanto serve para divulgar ideias boas como para percebermos que algumas ideias são más. Desta vez, as críticas pareceram-me dividir-se em três tipos: os candidatos não prestam; os eleitores são ignorantes; e muita gente vota por interesses menos nobres do que o bem colectivo. Mas nada disto justifica a abstenção nem são, em si, problemas graves para a democracia. A abstenção continua a ser o maior problema.

Para quem sempre votou num partido e agora reconhece que a sua equipa não está a jogar nada, a tentação de não votar é compreensível. Mas é má ideia. Para os candidatos, ganhar a autarquia com 20% de abstenção ou 80% de abstenção vai dar ao mesmo. E quem não vota conta menos. Não estou a dizer que não tenham o direito de se queixarem só porque não votaram. Toda a gente tem o direito de se queixar. Mas os políticos não dão grande importância a quem se abstém. Por um lado, porque é mais proveitoso aliciar eleitores dos outros partidos. Por cada voto que ganham assim é um voto que a concorrência perde, portanto esses valem o dobro. E, por outro lado, é mais fácil perceber como aliciar quem vota. Se um partido ecologista ganha muitos votos, a seguir os outros partidos começam a preocupar-se com o ambiente. Se um austeritário perde votos, os outros começam a opor mais a austeridade. A democracia não é uma eleição. São eleições regulares e cada uma informa os candidatos das seguintes. Quem não vota não diz o que quer e, por isso, ninguém lhe liga. Nem nestas eleições, nem nas próximas.

A ignorância é um problema mas é menos grave do que o pintam. É claro que seria preferível que todos os eleitores se informassem adequadamente acerca dos candidatos e dos seus projectos. Aumentava a probabilidade de obterem o resultado que desejam. Mas a eleição de representantes não é uma decisão técnica que tenha de se restringir a critérios objectivos. Também é legítimo preferir ser representado por uma certa pessoa porque se gosta da sua pinta, porque é simpática ou qualquer outra razão. A escolha do representante menos mau entre os que se candidataram tem um aspecto subjectivo irredutível que lhe dá legitimidade mesmo quando se desconhece quaisquer detalhes técnicos acerca da candidatura.

Finalmente, há o problema dos candidatos aldrabões e dos eleitores interesseiros. Curiosamente, este é um ponto importante a favor da democracia e da participação dos eleitores. Votar por interesse pessoal é racional. Eu votei na candidatura que me pareceu ter os projectos que mais me interessam. É verdade que há interesses menos legítimos, alguns até ilegais, mas a democracia é a melhor forma de conciliar todos os interesses. Qualquer alternativa acabaria simplesmente por impor os interesses da minoria à maioria dos outros. É também por causa dos aldrabões e dos interesseiros que importa que todos votem. Mesmo quem não tenha uma preferência clara por um candidato pode – e deve – contribuir para diluir o poder dos interesseiros e dos aldrabões. Esses vão votar de certeza, e cada abstenção faz contar mais esses votos.

É verdade que a democracia não é um sistema perfeito. Mas é o melhor que se arranja e se não votamos ainda fica pior. É de aproveitar que não estamos na Catalunha.

domingo, setembro 24, 2017

Adenda à rábula da misoginia.

A conversa com Mário Moura durou mais um pouco (1). Segundo Moura, a desigualdade sexual nas profissões «Não tem nada a ver com evolução, com biologia ou o que seja». Isto é pouco plausível. Entre outras coisas, implica acreditar que nenhum homem alteraria o seu projecto de vida perante o prognóstico de ficar estéril aos quarenta anos e que a gravidez e a amamentação têm um impacto exactamente nulo na competição por promoções. Implica também que a cultura humana seja independente da biologia, quando a capacidade de criar culturas como as que temos é a característica biológica mais saliente da nossa espécie. Mas a conversa estava a ser interessante pela admissão de Moura que rejeitar uma explicação biológica «é uma questão de princípio» e pela forma quase explícita como defendeu que a melhor explicação é aquilo que cada um quiser: «nunca te expliquei porquê... de uma maneira que tu achasses plausível. Porque já te expliquei porquê uma dúzia de vezes ou até talvez mais.» O relativismo é comum nas humanidades. Mas aquelas pessoas cuja disciplina tem “ciências” no nome tendem a disfarçá-lo melhor. Moura, que é designer, tem menos receio em admitir que mistura o que é com o que gostaria que fosse, exibindo às claras um tipo de raciocínio que sempre me fascinou.

Foi uma conversa penosa. Quando algo me interessa, sou muito melga e não respeito a convenção para este tipo de diálogo. Manda a tradição que se comece com arrogância, se passe logo ao insulto, que o interlocutor depois responde à altura e a conversa detona em indignação catártica para gáudio da assistência. Como eu não alinho nisto, a conversa costuma arrastar-se por várias tentativas de me picar até que a outra parte se farta. Pode parecer fútil, mas só perseverando é que se percebe como pensa quem diverge tanto de nós que nos detesta visceralmente. O normal é a conversa acabar quando o outro diz que já chega mas, desta vez, Moura também me bloqueou. E isto tem uns efeitos engraçados.

Bloquear podia ser uma forma razoável de filtrar comentários indesejados. Há tempos, quando o spam criacionista neste blog estava a ser excessivo, criei um script que permitia cada visitante filtrar os comentários como quisesse no seu computador. Mas, no Facebook, o bloqueio é mais radical. O bloqueado fica isolado de tudo o que esteja relacionado com o bloqueador. Por exemplo, quando Moura me bloqueou, fiquei sem acesso a toda a conversa, incluindo tudo o que eu escrevi e os diálogos que tive com outros interlocutores. Este bloqueio faz também com que eu não possa ler o que Moura escreve sobre mim no seu perfil público, acessível a todos os outros utilizadores do Facebook. Faz-me lembrar os segredos e os bilhetinhos passados às escondidas na escola primária. Sempre discordei de chamar “redes sociais” a estas plataformas. A rede são as pessoas e não a tecnologia. Mas talvez o Facebook mereça a designação de rede anti-social pela forma como aproveita os piores impulsos dos seus utilizadores para vender mais anúncios.

Obviamente, só usa o Facebook quem quer e Moura tem todo o direito de o usar como entender. Quem bloqueia ou não bloqueia é consigo. Mas esta pirraça é parte de um padrão preocupante nos guerreiros da justiça social. Não é um padrão novo, mas repete erros antigos que sabemos serem nefastos. Seitas e religiões sempre impuseram preceitos para isolar os seus seguidores de ideias que os pudessem tresmalhar. O que comer, como rezar, o que vestir, ler ou dizer, e até com quem se podiam casar, contribuíam para manter fiéis separados de infiéis. Hoje, nestas novas seitas, cumpre-se o sagrado dever de bloquear, “desamigar” ou limpar das listas de contactos qualquer fonte de impureza ideológica. É a doutrina do sou tão contra a discriminação que nem sequer falo com essa gente. Isto é preocupante porque mostra que não estão interessados em promover as suas ideias pelo diálogo. O que querem é impô-las à força.

Outro aspecto preocupante deste padrão é a convicção de que as explicações certas só podem interpretar os dados de acordo com a ideologia adoptada. É claro que homens e mulheres são muito diferentes. Mas essa diferença não pode influenciar a progressão numa carreira porque, se influenciasse, a realidade estaria a contradizer o princípio sagrado de que a culpa tem de ser do sexismo. No tempo de Galileu era a heresia. Agora é o politicamente incorrecto. O nome difere mas a ideia é a mesma. E, como podemos ver no exemplo do aquecimento global, quando a ideologia se interpõe entre nós e a realidade quem se lixa somos nós porque a realidade está-se nas tintas para o que pensamos dela.

Os gregos adorariam isto. Nas trevas da ignorância e da superstição fizemos luz. Inventámos métodos para compreender a realidade, criámos tecnologia que permite partilhar informação globalmente e construímos sociedades livres partilhando poder e responsabilidade entre todos. Há uns anos, a Internet aberta parecia anunciar uma sociedade global ainda mais esclarecida. Mas os deuses devem ter ficado com inveja, ou essas coisas que acontecem nas tragédias, e agora o negócio aduba novamente a mesquinhez intelectual que começara a definhar. As coutadas isoladas pela ideologia são alvo fácil de manipulação, comercial por intenção e eleitoral por efeito secundário. O discurso racional não consegue competir com a indignação irracional, que cabe no ecrã do telemóvel e dá mais likes. E a facilidade com que se cria uma bolha na qual todos concordam faz parecer que a realidade, afinal, obedece mesmo à ideologia. Algures pelo Facebook, apoiantes incondicionais da igualdade de género aplaudem com antecipação os autocarros exclusivos para mulheres, expurgando dos seus contactos qualquer machista que desconfie da contradição. É uma questão de princípio, dirão. Esperemos é que não seja o princípio do fim.

1- Nelson Zagalo, (Facebook). Ver também o post anterior, Treta da semana (atrasada): diz que sou misógino.

sexta-feira, setembro 22, 2017

Treta da semana (atrasada): diz que sou misógino.

O Facebook é um meio de comunicação peculiar. Nelson Zagalo mencionou que a sua filha o questionara acerca de haver tão poucas mulheres realizadoras. Vários comentadores apontaram o dedo ao sexismo e ao “patriarcado”. Este patriarcado está para as humanidades como o éter luminífero esteve para a física; um fluido invisível, sem massa nem viscosidade, mas milhões de vezes mais rígido do que o aço. O patriarcado também tem de ser tão poderoso que impede as raparigas de ir para informática, barra o acesso das mulheres a cargos eleitos e não as deixa fundar empresas mas, ao mesmo tempo, não se consegue vislumbrar como é que obriga as mulheres a fazer o contrário do que querem. O sexo que dantes marchou contra os cassetetes da polícia para ganhar o direito ao voto agora é subjugado pelo poder misterioso dos brinquedos cor-de-rosa e dos micromachismos.

Eu propus uma explicação alternativa. Há países onde a lei discrimina as mulheres e, nesses, o sexismo é obviamente o factor dominante. Mas nos países que garantem igualdade de direitos, a vontade individual tem mais poder do que essas pressões. O sexismo não desapareceu mas também não consegue impedir uma rapariga de ser engenheira ou um rapaz de ser enfermeiro se for isso que querem ser. As pessoas não são tão frágeis quanto a tese do patriarcado exige. A explicação mais plausível é a de que há diferenças médias nas preferências de homens e mulheres. Em particular, em quanto querem sacrificar para serem melhores que os outros.

Vamos imaginar que só existiam homens e, por só haver um sexo, não havia sexismo nem patriarcado. Mas metade dos homens engravidava, dava à luz, amamentava, só podia ter filhos em segurança até aos 40 anos de idade e, da puberdade aos 50 anos, tinha hemorragias e dores dois ou três dias por mês todos os meses. É óbvio que estes homens, mesmo sem sexismo, teriam de fazer um sacrifício maior para competir com os outros. É o que acontece às mulheres. Não é um impedimento. Não é impossível uma mulher superar os homens e há mulheres que o fazem, como Angela Merkel demonstra. Mas sai-lhes mais caro. Aos 63 anos, se Merkel fosse homem ainda podia ter filhos. Ou, não tendo de engravidar nem amamentar, até podia tê-los tido mais cedo. Mas, sendo mulher, seria muito difícil chegar onde chegou se tivesse tido filhos e agora já não os pode ter. Diferenças como estas afectam, em média, as escolhas das pessoas.

Além de ter custos menores, investir no sucesso profissional tem benefícios maiores para homens do que para mulheres. Woody Allen é um bom exemplo disso. Casou três vezes, a terceira com uma mulher com metade da sua idade, e teve relações com Diane Keaton e Mia Farrow. Eu não sei como ele é na cama, mas suspeito que, sem o sucesso profissional que teve, o seu sucesso com as senhoras seria também menor. Donald Trump, Richard Branson e Mick Jagger são outros exemplos de como o sucesso traz mais benefícios aos homens do que traz às mulheres.

Assim, a melhor explicação para haver mais homens que mulheres no topo de muitas carreiras é que a fossanguice para ser o melhor custa menos aos homens e dá-lhes mais proveito do que dá às mulheres. É uma explicação melhor do que a do tal “patriarcado”, não só porque se percebe de onde vem – não exige postular factores ad hoc para explicar cada caso – como também explica porque é que muitas desigualdades sexuais se agravam quanto mais liberdade, legal e económica, as pessoas têm para viver as suas vidas como preferem.

Mas este post é mais sobre o Facebook. Enquanto estava a ter esta discussão com Mário Moura no post de Nelson Zagalo (1), Moura deturpava a minha posição no seu perfil, escrevendo que eu defendia que «o facto de uma mulher ter dores menstruais a incapacita para realizar filmes» e que «A UP está cheia de grunhos mas desta vez» o grunho é da NOVA (2). É perfeitamente legítimo mas, graças à magia do Facebook, toda a gente pode ver esses comentários mas eu não posso comentar lá. Como Moura também não dá a ligação para o que eu escrevi, é fácil mostrar o espantalho que lhe aprouver sem enfrentar contraditório. Não é por isso de estranhar que passasse a ideia de que eu sou misógino (3). O que é falso e até irónico.

Apesar de perceber a correlação entre a fossanguice masculina e o sucesso reprodutivo, e como isso fez evoluir estas disposições típicas dos homens, parece-me que as mulheres é que têm razão. Allen, Branson, Jagger e Trump podem ter muito sucesso mas uma vida bem vivida não se mede por isso. Exige um equilíbrio razoável entre carreira, família e vida pessoal. Foi um revés infeliz do feminismo moderno ter adoptado uma métrica machista para avaliar a vida das pessoas. Moura, por exemplo, escreveu que numa sociedade igualitária as mulheres não se vão «dedicar a ser sopeiras ou qualquer actividade adequadamente feminina»(1). É como se fosse degradante investir menos na carreira para ter uma vida familiar melhor. Eu acho que é precisamente o contrário. Seria um disparate abdicar de brincar com os meus filhos e de os ajudar com os trabalhos de casa, ou abandonar interesses pessoais como a agricultura e discussões sobre religião, só para ser chefe ou para ser o melhor investigador do departamento. A ânsia de ultrapassar os outros é um impulso tipicamente masculino, e que suspeito estar relacionado com a maior taxa de suicídios neste sexo, mas não é receita para uma vida boa. Nisto, ao contrário de ser misógino, até sou mais mulher que homem. E tenho alguma pena daqueles, principalmente homens, que não conseguem perceber isto.

PS: tenho de me lembrar de discutir menos no Facebook e, em vez disso, trazer a discussão para aqui onde o direito ao contraditório incentiva mais honestidade.

1- Nelson Zagalo, (Facebook)
2- Mário Moura, (Facebook)
3- Mário Moura, mais comentários aqui, e aqui, por exemplo.

domingo, setembro 17, 2017

CETA.

Amanhã, dia 18, o Parlamento debaterá o Comprehensive Economic and Trade Agreement. Especificamente, uma proposta do governo para aprovar o acordo e quatro projectos para a sua rejeição (BE, PAN, PCP e PEV). As votações regimentais serão no dia 20.

Já escrevi sobre este tratado, há uns tempos (1). Agarrado ao objectivo de facilitar o comércio, o CETA inclui cláusulas que obrigam a alterar a legislação dos países signatários de formas que afectam directamente os cidadãos, como mais legislação criminal para proteger os monopólio sobre as cópias de obras, enfraquecer a protecção legal da privacidade e facilitar o comércio e exportação de dados pessoais. Inclui também um mecanismo que permite empresas estrangeiras processarem Estados cuja legislação lhes frustre a expectativa de lucro, condicionando ainda mais o processo legislativo e pondo em risco medidas de protecção do património, do ambiente ou dos direitos dos cidadãos. E tudo isto resulta de uma negociação à porta fechada entre grupos interessados, sem debate público nem qualquer legitimidade democrática.

A Plataforma Não aos Tratados TTIP/CETA/TISA organizou para amanhã uma concentração, em frente ao Parlamento, contra a aprovação do CETA (2). Eu não vou poder ir, mas vou escrever aos deputados do PS que foram eleitos por Lisboa e pedir que votem contra. Escolhi os do PS porque à esquerda está tudo contra o CETA e à direita é mais difícil persuadir a fazer o que está certo quando a alternativa pode dar mais dinheiro a quem já tem muito. Para escolher os deputados podem ir ao site da Assembleia da República, à página dos Deputados e Grupos Parlamentares. Na maioria dos casos, a página do deputado tem uma ligação para enviar um email.

Há uma carta-tipo no site da Plataforma contra o CETA, nesta página. Deixo também a minha aqui abaixo, se preferirem. O efeito individual será pequeno mas, se formos muitos, pode ser que eles façam contas aos votos e a democracia funcione.

1- Treta da semana (atrasada): CETA.
2- Contagem Final contra o CETA



Cara(o) Deputada(o) [...]

Eu, Ludwig Krippahl, cidadão e eleitor no círculo eleitoral de Lisboa, venho por este meio pedir que vote contra a Proposta de Resolução n.º 49/XIII/2.ª, que pretende aprovar o Acordo Económico e Comercial Global (CETA).

Este acordo, fruto de negociações secretas, pretende ter efeitos muito além da mera facilitação do comércio. Introduz novos mecanismos de resolução judicial que permitem a empresas processarem Estados à margem das leis de cada país, condicionando o processo legislativo, e exige alterações legais que põem em causa direitos dos cidadãos em vários aspectos da sua vida pessoal, desde o acesso à cultura aos direitos de privacidade e à protecção de dados pessoais.

Um tratado com um impacto tão grande na vida de todos os cidadãos não pode ser aprovado sem uma análise cuidada das suas consequências e sem um debate público que permita aos eleitores compreender o que se está a aprovar e decidir se é desejável. Este tratado, sendo muito mais abrangente do que um mero tratado comercial, não deve ser ratificado enquanto essas condições não se cumprirem.

Saudações cordiais,
Ludwig Krippahl