domingo, Fevereiro 12, 2012

Treta da semana: a burocracia do sobrenatural.

Há duas semanas, o Patriarcado de Lisboa publicou a norma pastoral para os Sacramentais e as Exéquias cristãs. Isto porque a «unidade fecunda entre a lex agendi e a lex credendi» por vezes «fica comprometida pelos que, a pretexto da eficácia pastoral, desprezam as normas que regulamentam as celebrações da Igreja»(1). Por muito que seja o ganho na “eficácia pastoral”, defende o documento, não se deve desprezar os regulamentos por se pôr em causa a “eficácia sacramental”. Esta norma interessou-me não só por regular exorcismos e orações de cura, temas importantes no diálogo com quem alega que catolicismo não é superstição, mas também por isto da eficácia. Fiquei com curiosidade de saber como mediram a eficácia pastoral e sacramental para determinar que o aumento de uma diminui a outra. Infelizmente, da eficácia apenas dizem provir do «mistério pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo» e não esclarecem como apuraram a sua magnitude e origem. No entanto, as partes sobre as orações e os exorcismos compensaram o tempo investido na leitura do documento.

Na página 4, aprendi que «a realização das celebrações litúrgicas com o fim de obter de Deus a cura [exige] a licença explicita do Bispo diocesano e requer, para a realização de orações não litúrgicas com o mesmo fim, a vigilância do mesmo Bispo». O catolicismo é muito atreito a mistérios, e é sem dúvida misterioso como um deus todo poderoso, criador do universo e que nos ama a todos, só aceita liturgias a pedir a cura se vierem com o carimbo do senhor Bispo. Um mistério tão misterioso como este, a par de outros como o Mistério da Fé, o Mistério da Salvação e o Mistério da Ressurreição, merece com certeza um nome. Eu proponho Mistério do Tacho.

Mas a parte melhor é a que regulamenta a prática de expulsar o demo, mafarrico ou, como é referido no texto, o “Maligno”, que, salientam, «Não se trata de uma ficção da inteligência para racionalizar o Mal [...]. O Maligno é criatura que por desobediência e inveja, não só perdeu a sua bondade como fez entrar no mundo o mal e a morte.» Não explicam o que teria levado Deus a criar um ser tão pérfido e, pior ainda, a dar-lhe tanto poder. É outro Mistério. O Mistério do oops, desculpem lá, nem sei onde tinha a cabeça nesse dia.

Adverte a norma que «A pessoa que se diz atormentada pelo demónio pode estar a sofrer apenas de alguma doença, especialmente psíquica, ou a ser iludida pela própria imaginação. […] Mas também há que estar atento, para se não deixar iludir pelas artes e fraudes que o diabo utiliza para enganar o homem, de modo a persuadir o possesso a não se submeter ao exorcismo, sugerindo-lhe que a sua enfermidade é apenas natural ou do foro médico». Para ajudar o exorcista na difícil tarefa de distinguir entre maluqueira, parvoíce, disparate ou Possessão Demoníaca®, a norma enumera uma série de critérios. Isto parece-me um erro grave. Deve o sacerdote certificar-se de que os males não são atribuídos pela vítima a má sorte ou maldição, que não se agravaram na sequência de consultas a «feiticeiros ou pretensos exorcistas», que os afectados não sofreram traumas e que não se sintam tentados a abandonar a prática religiosa. Caso se verifique alguma destas condições, o ministro da Igreja deve prestar auxílio espiritual «mas de modo algum [recorrer] ao exorcismo». Ora, sendo Satanás exímio nestas coisas, facilmente aproveitará este buraco procedimental acossando pessoas supersticiosas ou traumatizadas, ou tentando as vítimas com mais umas horas de sono nas manhãs de Domingo. Assim, facilmente se safa de ter de abanar a cama, projectar vómito, torcer o pescoço ou o que raio faz quando confrontado por um exorcista. Eu propunha que o sacerdote simplesmente perguntasse a Deus se o aflito sofre um ataque do Maligno, se tem pancada ou se porventura é afligido por outra entidade sobrenatural. O gato das botas ou o Saci-pererê, por exemplo. Se é para inventar, ao menos não compliquem.

E também o combate contra o Maligno está sujeito à burocracia eclesiástica. Em cada freguesia onde exorcise, o exorcista precisa do papelinho próprio. «Segundo o cân. 1172- §1 ninguém pode legitimamente exorcizar os possessos, a não ser com licença especial e expressa do Ordinário do lugar [… e sempre] sob a orientação do Bispo diocesano uma vez que é a ele que pertence, no âmbito da sua Diocese, o ordenamento da sagrada Liturgia». Ou, como diria Eric Cartman, “Respect my authoritah!”

Por coincidência (ou providência divina, quem sabe), depois de ter começado a escrever isto descobri no Companhia dos Filósofos um post do Pedro Ferreira da Silva onde se lê «Jesus quis curar o leproso. Tal como ele, procuremos pedir a Jesus que nos cure.»(2) Sim, mas só com o papelinho do Bispo. Sem papelinho, não há cura. E se quiserem mandar demónios para os porcos tem de ser em triplicado e com o selo branco da paróquia. Senão ninguém se entende.

Nota: pelas minhas contas, esta é a treta da semana número 100000000. Ok, é em binário, mas mesmo assim é um número jeitoso...

1- Documento disponível em Normas Pastorais para a celebração dos Sacramentais e Exéquias Cristãs, via o Patriarcado de Lisboa, a agência Ecclesia e o Ricardo Alves no Facebook.

2- Pedro Ferreira da Silva «Se quiseres, podes curar-me»

13 comentários:

  1. Num mundo ideal a comunicação entre humanos e deuses seria fácil e sem qualquer ambiguidade. Perante um dilema ético o humano dirigia-se aos deuses :

    - a minha mulher põe-me os cornos com todo o cão e gato. Devo divorciar-me ou continuar casado ?

    A divindade responde-lhe-ia diretamente e duma forma clara e o humano decidia no seu livre arbítrio respeitar a vontade da divindade ou não.

    Consciente do que agradava ou não à divindade e segundo a sua própria vontade.

    Ora isto era muito bonito e justo mas a vida não é assim tão simples.

    Se nos tempos de antanho as divindades falavam diretamente e sem parábolas aos humanos : - desta fruta podes comer, daquela não, a lei de Moisés não é da lavra dele mas do velho Jeová, podes vender os teus filhos como escravos se forem rebeldes e um sem número de preceitos que eram dados diretamente e sem intermediários com o decorrer dos tempos as coisas mudaram.

    As divindades, certamente por causa do aumento da população, não falam diretamente com o Manuel ou a Maria.

    São necessários intermediários. Quer porque são iluminados ou fruto dos seus muitos e laboriosos estudos, dum conhecimento perfeito de línguas mortas e moribundas são os únicos que podem profetizar e falar em nome dos deuses.

    É um pouco como tentar fazer uma urbanização no meio duma reserva agrícola. Não se marca uma reunião com o presidente da câmara ou ministro da tutela a pedir tal.

    Há pessoas que pelos seus estudos, amizades pessoais, peso politico e integridade moral, politica e ética podem servir de medianeiros entre o decisor e apresentar a questão duma forma de tal maneira elevada e eivada de valores éticos que permita a construção.

    Ora com os deuses a coisa é parecida. Mal parecia que o Manuel ou a Maria - quiçá com a escolaridade minima - vão pedir diretamente aos deuses.

    Para isso há pessoas esforçadas e que dedicam toda a sua vida a estas coisas do além, das curas milagrosas, do que os deuses querem e não querem dos humanos e da interpretação correta e sem enganos das vontades dos deuses.

    Ora bolas este trabalho - e cremos firmemente que é muito - deve ser bem remunerado e regulamentado.

    Senão era o caos e o fim das carreiras médicas, hospitais, enfermeiros, farmacêuticas, seguros de saúde e quejandos.

    Já imaginaram o prejuízo que era para a economia ? e o impacto no desemprego?

    Haja juízo e contenção.

    Os milagres, despachos (que não os aduaneiros), engrimanços, ressurreições e quejandos devem estar limitados aos técnicos desta área.

    Ora agora queria o L. K. expulsar demônios ou pôr paralíticos a andar sem pertencer a uma organização de classe e sem ser sindicalizado.

    Era o caos.

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  2. Não temos que necessariamente que subscrever "a burocracia religiosa" para aceitar os milagres de Jesus, testemunhados por muitos e registados pormenorizadamente por fontes contemporâneas dos eventos, independentes e íntegras.

    Foram simplesmente os eventos mais marcantes da história universal.


    Os milagres de Jesus e a sua ressurreição tiveram exactamente a mesma causa que o Universo, a vida e o ser humano: uma causa sobrenatural.

    Nexiste nenhuma lei da física ou da biologia que explique a origem do da energia ou da vida. Mas estas existem, ainda assim.

    Que os modelos explicativos naturalistas deixam muito a desejar podemos ver, entre muitos outros domínios, na saga dos campos magnéticos.

    A presença de campos magnéticos fortes em galáxias, estrelas e planetas supostamente muito antigos continua a pôr em causa os modelos de dínamo sobre a respectiva origem e os modelos de evolução cósmica que deles necessitam.

    Até mesmo a Lua tem um campo magnético que as teorias do dínamo não explicam, obrigando a procurar fontes alternativas de energia.

    Nos últimos dias foi dado a conhecer o mapa dos campos magnéticos da Via Láctea. Mas os cientistas não parecem muito optimistas quanto à explicação da respectiva origem a partir dos modelos cosmológicos dominantes. Como se diz:

    "With this new data, researchers will be able to provide updates to the image of the Faraday sky, and perhaps someday understand the origin of the galactic magnetic fields."

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  3. A origem da vida é um mistério. E no entanto, ela existe. As causas naturais da sua origem nunca foram encontradas, apesar de milhares de cientistas a terem procurado até hoje.

    A Bíblia, no livro de Génesis, contém uma referência enigmática a gigantes.

    Numa das referências, ela diz:

    "Ora, naquele tempo havia gigantes na terra...”. (Gênesis 6:4 RA).

    Este é, também, um dos mistérios na Bíblia.

    Ele pode ser relevante na discussão em torno de uma estranha múmia descoberta no Peru.

    Talvez seja bom, também aqui, procurar as respostas em Génesis...

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  4. O Sousa da PonteFeb 12, 2012 05:35 PM

    Num mundo ideal a comunicação entre humanos e os bezerros de ouro seria fácil e sem qualquer ambiguidade. Perante um dilema ético o humano dirigia-se aos deuses :

    - a minha barra de ouro põe-me os cornos com todo o cão e gato. Devo divorciar-me e vendê-la ou continuar casado e sujeitar-me aos cães e gatos raptarem-na cá da maison?

    o combate ao malino ao demo ao malinó a baal o zebu...começa em casa
    largar o dinheiro e o ouro que é a fonte de todo o mal
    e só comprar ou vender com bit con's qué a marca da besta....

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  5. É uma questão de ouvir e aprender: http://www.youtube.com/watch?v=oAPiXPC_-Gc

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  6. Recentemente soubemos que a mitose, a divisão celular que ocorre desde a primeira célula até à morte de cada indivíduo, é muito mais complicada do que se pensava...

    O evolucionismo, postulando que tudo acontece por acaso, tende a simplificar aquilo que é bem mais complicado... (vejam-se os argumentos como "a chuva cria códigos", ou "a teoria dos feijões")...

    Hoje temos mais outra confirmação de que a mitose é uma maravilha de design, altamente regulada e de extrema precisão, que nunca poderia ter surgido por processos aleatórios...

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  7. A capacidade que os bebés revelam desde cedo para entender muitas palavras faladas corrobora que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de um Deus que se revela como Palavra(Logos, Verbo).

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  8. Um estudo recente concluiu que os cães ultrapassam os chimpanzés na capacidade de entender os seres humanos...

    Provavelmente os adeptos da "teoria dos feijões" vão concluir que os cães são os nossos antepassados evolutivos directos...

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